Jorge Palma morreu aos 76 anos. Mas há músicos cuja despedida não se faz em silêncio. Faz-se a ouvir as suas canções.
Nascido em Lisboa, a 4 de junho de 1950, Jorge Palma começou a estudar piano aos seis anos e entrou no Conservatório de Música de Lisboa aos dez. Ainda adolescente, chegou a distinguir-se internacionalmente como pianista, mas aos 14 anos decidiu trocar a música clássica pelo rock e pela liberdade que encontrava nas novas sonoridades.
Nos anos 60 e 70 passou por grupos como os Black Boys e os Sindicato. Com os Sindicato participou na primeira edição do Festival de Vilar de Mouros, em 1971. No ano seguinte iniciou a carreira a solo com o single “The Nine Billion Names of God”.
A vida de Jorge Palma nunca foi apenas feita de estúdios e palcos. Em 1973, quando foi chamado para o serviço militar, deixou Portugal e partiu para a Dinamarca. Mais tarde viveu em Paris, onde tocou nas ruas e no metro, interpretando canções de Bob Dylan, Paul Simon, James Taylor e outros músicos que ajudaram a moldar a sua identidade artística.
Depois do 25 de Abril regressou a Portugal e, em 1975, editou o primeiro álbum, “Como uma viagem na palma da mão”.
Seguiram-se décadas de uma carreira construída sem pressa e sem uma fórmula definida. Jorge Palma escreveu sobre a noite, o amor, a solidão, a liberdade, os encontros e os desencontros. Tocou piano e guitarra, compôs para outros artistas e integrou projetos como os Palma’s Gang, Rio Grande e Cabeças no Ar.
Na sua discografia ficam álbuns como “O Lado Errado da Noite”, “Quarto Minguante”, “Bairro do Amor”, “Só”, “É Proibido Fumar”, “Norte”, “Voo Nocturno” e “Com Todo o Respeito”.
E ficam, sobretudo, as canções.
“Dá-me Lume”, “Deixa-me Rir”, “Frágil”, “Bairro do Amor”, “A Gente Vai Continuar” e “Encosta-te a Mim” são apenas alguns dos temas que atravessaram gerações e entraram na memória coletiva da música portuguesa.
“Só”, editado em 1991, é um dos discos mais particulares da sua carreira. Jorge Palma revisitou ao piano e voz algumas das suas próprias canções, num registo íntimo que revelou a força da escrita mesmo quando tudo o que estava à volta desaparecia.
Ao longo dos anos recebeu várias distinções. Em 2002 venceu o Prémio José Afonso. Em 2012 recebeu o Prémio Pedro Osório da Sociedade Portuguesa de Autores. Em 2020 foi distinguido com a Medalha de Mérito Cultural da Câmara Municipal de Lisboa e condecorado como Comendador da Ordem do Infante D. Henrique.
Em 2023 lançou “VIDA”, o seu último álbum de originais. E em 2025 voltou aos palcos ao lado dos filhos, Vicente e Francisco Palma, no projeto “3 Palmas na Mão”.
Em abril de 2026 recebeu o Prémio Carreira dos PLAY – Prémios da Música Portuguesa.
Jorge Palma morreu na noite de 21 de setembro, vítima de uma paragem cardiorrespiratória.
Tinha 76 anos.
Fica uma vida inteira de música.
Ficam as palavras.
Fica o piano.
Ficam as histórias.
E ficam aquelas canções que, quando voltarmos a ouvi-las, vão continuar a trazer Jorge Palma de volta.
Despedimo-nos de Jorge Palma como ele provavelmente gostaria: com música.
Porque há vozes que se calam.
Mas há canções que nunca acabam.