Há discos que envelhecem e outros que parecem ganhar novas camadas cada vez que o mundo tropeça nos mesmos erros. Marvin Gaye fez isso com What's Going On. Hoje, o álbum celebra 55 anos e continua a soar menos como uma peça de museu e mais como uma conversa interrompida ontem à noite.
Quando saiu, a 21 de maio de 1971, a Motown não sabia muito bem o que fazer com ele. Marvin Gaye vinha de sucessos românticos, de canções elegantes, desenhadas para tocar na rádio e fazer dançar. De repente, aparece com um disco atravessado pela guerra do Vietname, brutalidade policial, pobreza, crise ambiental e desespero urbano. Berry Gordy, fundador da Motown, chegou a considerar que a canção principal não tinha potencial comercial. Acabou por ser um dos momentos decisivos da história da soul.
O mais impressionante em What’s Going On nunca foi apenas o tema. Foi a maneira como Marvin escolheu dizê-lo. Não há gritos panfletários. Há suavidade. Há dor. Há perguntas feitas quase em sussurro. O disco começa com vozes de fundo, conversas, risos, saxofones quentes, como se estivéssemos no meio da rua a ouvir a vida acontecer. E depois vem aquela pergunta que atravessa gerações: “Mother, mother, there’s too many of you crying”.
A inspiração nasceu também da vida real. Renaldo “Obie” Benson, dos Four Tops, ficou chocado depois de assistir a confrontos violentos entre polícia e manifestantes anti-guerra. Marvin Gaye pegou nesse desconforto colectivo e transformou-o num álbum conceptual que mudou a música negra americana.
Mas talvez a maior força do disco seja outra. Ele nunca perdeu actualidade. “Mercy Mercy Me (The Ecology)” falava de destruição ambiental décadas antes da crise climática ocupar manchetes diárias. “Inner City Blues” continua a soar familiar em cidades marcadas por desigualdade e tensão social. Em muitas reacções recentes ao álbum, fãs escrevem quase a mesma frase: “é assustador como isto ainda faz sentido”.
Ao longo dos anos, What’s Going On deixou de ser apenas um clássico. Tornou-se referência emocional e artística para músicos tão diferentes como Prince, D'Angelo, Erykah Badu ou Raphael Saadiq. Muitos artistas perceberam ali que a soul podia ser íntima e política ao mesmo tempo. Que uma canção podia abraçar alguém e inquietá-lo na mesma respiração.
Há também algo profundamente humano na fragilidade de Marvin Gaye neste disco. Ele não canta como alguém que tem respostas. Canta como alguém esmagado pelas perguntas. Talvez seja isso que mantém What’s Going On vivo cinquenta e cinco anos depois. Não tenta parecer eterno. Apenas honesto. E a honestidade raramente envelhece.